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Alguma coisa acontecendo, Mr. Jones

06 set

Por Fernando Gabeira em 05/09/2011 na edição 658

 

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 2/9/2011; intertítulos do OI

De Sana a Londres, de Tel-Aviv a Santiago, de Trípoli a Madri, os jovens estão em movimento no mundo. Uma armadilha perigosa seria estabelecer paralelos com 1968. O próprio Daniel Cohn-Bendit se recusa a isso, afirmando que são momentos diferentes na História e se quisermos entender o que se passa melhor é esquecer 68. No entanto, um verso de Bob Dylan, composto na época, ainda tem alguma validade: alguma coisa está acontecendo, Mr. Jones, e você não sabe o que é.

A maioria dos processos ainda não foi concluída. Por maior que seja o esforço analítico, é preciso uma dose mínima de humildade para tentar entender tudo o que se passa e estabelecer conexões entre lugares tão distantes e sociedades tão singulares. Até agora, um único denominador comum tem sido enfatizado: o uso de instrumentos de comunicação fora do controle dos governos, como é o caso da internet. Mas mesmo esse dado é relativo, porque no Egito e em outros países do Oriente Médio a repressão conseguiu bloquear a internet.

Novo modo

Na Inglaterra talvez tenha acontecido algo realmente especial. Cohn-Bendit, ironicamente, afirma que ali ocorreu a primeira revolta liberal da juventude planetária. Alguns políticos ingleses chegaram a pedir aos produtores de BlackBerry que bloqueassem as mensagens no interior do país. O que, a julgar pela iniciativa, define a revolta inglesa como também a primeira realizada por usuários de BlackBerry.

Os jovens ingleses atacaram lojas e supermercados sempre com a preocupação de obter objetos de consumo, de preferência das marcas mais famosas. O que levou o Daily Telegraph a concluir que sua revolta era para consumir o mesmo que os dirigentes ingleses.

Já tive a oportunidade discutir esse tema durante os saques no início da década de 1990 no Rio. Muitos saqueadores levaram iogurte e bacalhau, escolha que levou a uma condenação mais severa da imprensa. Era uma prova de que não estavam apenas famintos. Mas a perplexidade tem a mesma origem do choque dos ingleses com as características dos saques do verão londrino.

Nem todos os bens de consumo estão ao alcance de todos. Mas a propaganda, sim.

Tangidos pelo desemprego, pela alta dos alimentos e revoltados com a ditadura em seus países, os jovens dos países árabes iniciaram uma nova fase histórica na região. Ditadores balançaram, ditadores conciliaram, foram presos e exilados.

A implantação da democracia em alguns países já abre uma enorme perspectiva para a juventude árabe. Mas o que dizer dos espanhóis, também pressionados pelo desemprego? Sua luta é para aprofundar a democracia, mudar o modo de fazer política. É uma demanda nova, difícil de ser entendida claramente pela população e até por alguns manifestantes. O que significa aprofundar a democracia, que novos hábitos políticos devem ser inaugurados?

Mais estrangeiros

Todos nós temos alguma ideia sobre isso. Mas não há consenso nem clareza. O movimento dos indignados em Madri ganhou grande atenção na Espanha e no mundo também por ter surgido perto das eleições municipais. Seu grande teste será sobreviver e crescer no período pós-eleitoral, quando grande parte dos eleitores desloca sua atenção da política para a vida cotidiana.

Em Israel, o movimento dos jovens talvez seja o que mais tem crescido numericamente, a ponto de projetar um encontro de 1 milhão de pessoas, algo que não é de todo impossível na China ou na Índia, mas um feito extraordinário para um país de 8 milhões de habitantes.

O modelo do movimento em Israel e mesmo o da Espanha se inspiraram na Islândia. Em Tel-Aviv, revoltado com o aumento do preço de seu aluguel, Daphni Leef decidiu acampar como protesto. Na Islândia, a inspiração dos espanhóis, o banco Kaupthing acabara de quebrar. O cantor Hordur Torfason pegou sua guitarra e foi para a porta do Congresso. É um cantor conhecido, atraiu gente e abriu o microfone para as pessoas que se aproximaram. Daí nasceu um movimento chamado Vozes ao Vento, que levou a Islândia, via plebiscito, à recusa de pagar uma dívida de 4 bilhões cobrada pela Inglaterra e pela Holanda.

É ilusão, entretanto, achar que com uma guitarra na mão e uma revolta na cabeça milhares de pessoas se vão aglutinar em torno de um líder ocasional. Pesquisa do Pew Global Attitudes Project revelou que 27% dos egípcios estavam satisfeitos com seu país, bem abaixo dos 47% registrados em pesquisas anteriores. Na China, 87% estavam satisfeitos.

Isso não explica o fracasso dos protestos de Jasmin.

A China aprendeu com as manifestações da Praça Tiananmen. Um longo relato na revista Atlantic de agosto, feito por James Fallows, revela que as autoridades chineses agora temem tudo e tomam providências com antecipação, às vezes até desproporcionais ao perigo. A China começa prendendo os advogados de direitos humanos – Fallows sublinha que, embora pareça impossível, eles existem lá. Só depois passa a prender os possíveis manifestantes. Por isso os protestos chamados para a esquina de Wangfujing, defronte ao McDonald’s, tinham mais jornalistas estrangeiros do que chineses.

Apoio maciço

O caso chileno, que tenho acompanhado esta semana, também é particular. O sistema educacional formulado na época de Pinochet continua em vigor. Estudantes saíram às ruas contra um modelo de mercado, pedindo educação gratuita e de qualidade. Independentemente do que se acha da proposta, é inevitável constatar que num país com grande tradição de luta ela subiu ao topo da agenda. E a maioria dos chilenos, cerca de 77%, apoia a tese dos estudantes, sem, contudo, apoiar os distúrbios que extremistas provocam ao fim das manifestações.

O jornal chileno El Mercurio destacou, esta semana, Índia e Brasil às voltas com a corrupção. Ambos os países em processo de se tornarem potências mundiais. Todos se olham em busca do movimento fora de suas fronteiras, porque sabem que vivemos uma história sem fim.

***

[Fernando Gabeira é jornalista]

Fonte:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/-alguma-coisa-acontecendo-mr-jones

 
16 Comentários

Publicado por em setembro 6, 2011 em Uncategorized

 

16 Respostas para “Alguma coisa acontecendo, Mr. Jones

  1. só quero vê no que vai dá!

    setembro 6, 2011 at 9:00 pm

    Este “mesmo assim eu vou te amar” não foi prá vc não, mané HRP!! (bem que tu gostaria, né não??))

    E existo e vivo com a mesma dedicação e condescendência que Deus dedicou a vc!!! BOBÃO!!!

     
  2. JOSE MARIO HRP!

    setembro 6, 2011 at 8:57 pm

    Amigos , crentes em Deus, Descrentes, gente em geral, mas quem possa ver o documentário, agora, no MAX* da HBO, sobre a desgraça do preconceito nos EUAs de antes das leis anti separação racial “Soundtrack For a Revolutiona”, que o faça!
    O Senhor talvez inspire alguns, a mim, um desgraçado torpe, aquilo me parece o fimda picada!
    Quem poderia crer que pudessemos ser tão ruins?
    O mundo mudou, mas há que mudar muuuuuuuuuuuuuito mais!
    Paz e luz, deus em nossos corações!
    Tchau e chega!

     
  3. Jose Mario HRP

    setembro 6, 2011 at 8:46 pm

    Só quero saber como uma mala dessas existe e vive?
    Putz!

     
  4. só quero vê no que vai dá!

    setembro 6, 2011 at 8:33 pm

    Só queria saber: Quem postou isto??? A idéia foi de quem???

    Prometo não rogar pragas, fazer mal juízo, macumba nem pensar…

    Só queria sabem QUEM??? 😛

    Não importa quem vc seja, mesmo assim eu vou te amar… (JURO!!!)

     
    • surfando na jaca

      setembro 6, 2011 at 8:41 pm

      Eu heim… Barbaridade, tchê. HRP, é contigo isso, mesmo não sendo. Abs, camarada, que feriado sem enforcar só é bom para preparar o relatório de sempre. Ai, Jesus, com tudo despencando no exterior, até o negão Obama.

       
      • Proftel

        setembro 7, 2011 at 3:34 pm

        Surf:

        Dê uma olhada nos comentários e no post aí em cima, talvez você tire algumas idéias a mais pra colocar nesse “relatório” (que deve ser sério e pra gente “graúda”, assim imagino).

        🙂

         
  5. JOSE MARIO HRP!

    setembro 6, 2011 at 8:32 pm

    Cara …………..feriado é um saco sem alças!
    Surf……Quem não tem cão caça as gatinhas!
    TÔ certo ou TÔ errado?
    Amanhã almoço especial…..estão me explorando!
    Auxilio do freezer dos peixes!

     
  6. JOSE MARIO HRP!

    setembro 6, 2011 at 8:02 pm


    O Billie Paul pintou em santos , lá no clube dos riquinhos, umshow de dar dor nos tornozelos:
    1974………….

     
  7. JOSE MARIO HRP!

    setembro 6, 2011 at 7:58 pm

    Uau , Uau , UauAlex…..na baixada, nos nossos bailinhos , cheios de gatinhas………………..
    Um dia dia lá no Clube internacional , na Ponta da Praia, curti o Billy Paul e depois , pintou a seleção do Bernard, Badalhoca, Xandó, e aqueles caras que nos trouxeram a medalha de prata na Olimpiada com Bernard, Xandó, e Badalhoca! E o Willian , o maior levantador de todos os tempos!
    Eles jogaram uma partida inesquessivel lá no ginásio do IInternacional contra a China!
    Ganhamos a moçada do basquete, como eu, e do volley, do Hoquey de patins, achavamos que o nosso Volley iria ser medalha de ouro!
    Éramos uma geração de caras dedicados ao esporte!
    ……….Um tempo de vitórias e sonhos!
    Nosso país era nossa arte!
    Fred….cara voce precisda escrever um livro!

    os morcegos me inspiram!

    Surf, não chateie o FDZAAAAAA ou a FDZZZZZA!

     
    • surfando na jaca

      setembro 6, 2011 at 8:06 pm

      Caraco, bateu uma nostalgia daqueles bailezinhos mela-cuecas. Seu Francisco vai aparecer aqui amanhã soltando fogo pelas ventas.

       
  8. Jose Mario HRP

    setembro 6, 2011 at 7:36 pm

    Me recuso a comentar Gabeira…sorry!

     
  9. surfando na jaca

    setembro 6, 2011 at 6:56 pm

    Camaradas, a coisa no exterior está ficando complicada. Vejam por aí, podem começar pela Carta Maior.

     
    • surfando na jaca

      setembro 6, 2011 at 6:57 pm

      Falo de economia.

       
  10. surfando na jaca

    setembro 6, 2011 at 12:55 pm

    Gabeira está mais é para geração 69.

     
    • Jesus era Comunista

      setembro 6, 2011 at 1:10 pm

      heheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheheh

       
  11. Proftel

    setembro 6, 2011 at 12:33 pm

    Pessoal, confesso que não sou muito fã do Gabeira.

    O que despertou interesse no texto foi juntar praticamente todas as manifestações que andam ocorrendo pelo mundo. Quando as vemos isoladamente é uma coisa, tentar encontrar um ponto em comum é outra completamente distinta – e não tem nada que nos leve a comparar com “68”.

    🙂

     

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