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Tempos apocalípticos Paulo Brossard

14 mar

Segunda-feira, Março 12, 2012

Zero Hora 12/03/2012
Minha filha Magda me advertiu de que estamos a viver tempos do Apocalipse sem nos darmos conta; semana passada, certifiquei-me do acerto da sua observação, ao ler a notícia de que o douto Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado, atendendo postulação de ONG representante de opção sexual minoritária, em decisão administrativa, unânime, resolvera determinar a retirada de crucifixos porventura existentes em prédios do Poder Judiciário estadual, decisão essa que seria homologada pelo Tribunal. Seria este “o caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de Estado laico” e da separação entre Igreja e Estado.
Tenho para mim tratar-se de um equívoco, pois desde a adoção da República o Estado é laico e a separação entre Igreja e Estado não é novidade da Constituição de 1988, data de 7 de janeiro de 1890, Decreto 119-A, da lavra do ministro Rui Barbosa, que, de longa data, se batia pela liberdade dos cultos. Desde então, sem solução de continuidade, todas as Constituições, inclusive as bastardas, têm reiterado o princípio hoje centenário, o que não impediu que o histórico defensor da liberdade dos cultos e da separação entre Igreja e Estado sustentasse que “a nossa lei constitucional não é antirreligiosa, nem irreligiosa”.
É hora de voltar ao assunto. Disse há pouco que estava a ocorrer um engano. A meu juízo, os crucifixos existentes nas salas de julgamento do Tribunal lá não se encontram em reverência a uma das pessoas da Santíssima Trindade, segundo a teologia cristã, mas a alguém que foi acusado, processado, julgado, condenado e executado, enfim justiçado até sua crucificação, com ofensa às regras legais históricas, e, por fim, ainda vítima de pusilanimidade de Pilatos, que tendo consciência da inocência do perseguido, preferiu lavar as mãos, e com isso passar à História.
Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes no templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou. No seu artigo “O justo e a justiça política”, publicado na Sexta-feira Santa de 1899, Rui Barbosa salienta que “por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz”… e, adiante, “não há tribunais, que bastem, para abrigar o direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados”.   Em todas as fases do processo, ocorreu sempre a preterição das formalidades legais. Em outras palavras, o processo, do início ao fim, infringiu o que em linguagem atual se denomina o devido processo legal. O crucifixo está nos tribunais não porque Jesus fosse uma divindade, mas porque foi vítima da maior das falsidades de justiça pervertida.
Não é tudo. Pilatos ficou na história como o protótipo do juiz covarde. É deste modo que, há mais de cem anos, Rui concluiu seu artigo, “como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”.
Faz mais de 60 anos que frequento o Tribunal gaúcho, dele recebi a distinção de fazer-me uma vez seu advogado perante o STF, e em seu seio encontrei juízes notáveis. Um deles chamava-se Isaac Soibelman Melzer. Não era cristão e, ao que sei, o crucifixo não o impediu de ser o modelar juiz que foi e que me apraz lembrar em homenagem à sua memória. Outrossim, não sei se a retirada do crucifixo vai melhorar o quilate de algum dos menos bons.
Por derradeiro, confesso que me surpreende a circunstância de ter sido uma ONG de lésbicas que tenha obtido a escarninha medida em causa. A propósito, alguém lembrou se a mesma entidade não iria propor a retirada de “Deus” do preâmbulo da Constituição nem a demolição do Cristo que domina os céus do Rio de Janeiro durante os dias e todas as noites.
Fonte:
 
5 Comentários

Publicado por em março 14, 2012 em Uncategorized

 

5 Respostas para “Tempos apocalípticos Paulo Brossard

  1. Jose Mario HRP

    março 15, 2012 at 5:56 am

    Concordo com o inteiro teor do texto, mas é assim:
    Se voce não tem fé de nada adianta a figura de Jesus pelas paredes……

     
  2. Patriarca da Paciência

    março 15, 2012 at 4:07 am

    Proftel,

    sem dúvida nenhuma é muito interessante a tese do Paulo Brossard, ou seja, de que o crucifixo nos tribunais representa a simbólica presença de uma das maiores injustiças da história, acontecida justamente em nome da Justiça e efetivada pela fraqueza daqueles que estavam investidos da prerrogativa de julgar.

    Só que, apesar de brilhante, é a primeira vez que vejo alguém defender tal ponto de vista.

    Em todos os outros artigos que tenho lido, os autores sempre tendem a demonstrar que o crucifixo representa a religiosidade do povo brasileiro e, principalmente, o fato do Brasil ser um país de tradição católica.

    Mas sem dúvida nenhuma o artigo do Sr. Paulo Brossard é relevante e merece ser lido e discutido, principalmente por aqueles que tomam decisões.

    Muito interessante mesmo.

     
  3. Proftel

    março 14, 2012 at 9:05 pm

     
  4. Proftel

    março 14, 2012 at 7:55 pm

    Dois Confrades creio, o texto tocará.

    🙂

     
  5. Proftel

    março 14, 2012 at 7:06 pm

    Não sei se vocês gostarão desse Post e do acima deste (sobre Petróleo).

    São assuntos distintos mas creio de interesse aos pensantes.

    🙂

     

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