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Tragédia do Afeganistão é que ainda estamos lá

16 mar

No distrito de Panjwai, no Afeganistão, há um homem que poderia trocar histórias de vida com Jó, do Velho Testamento e, provavelmente, superaria Jó, se não na dor, com certeza na justa raiva.

Quando Nazim Shah voltou para casa, de uma viagem à cidade de Kandahar, ali próxima, encontrou toda a família morta. Toda a família de Nazim Shah, afegão, foi assassinada a sangue frio por um soldado do exército dos EUA.
No domingo, um sargento do Exército dos EUA cuja identidade permanece em segredo, veterano de várias missões no Iraque e então em missão no Afeganistão, saiu sem autorização de sua base militar e andou na direção de um vilarejo próximo, de madrugada, antes do raiar do sol. O que se sabe é que o sargento, de 38 anos e pai de dois filhos, entrou em várias casas do vilarejo e matou a sangue frio, a tiros, quem viu pela frente, gente que, a maioria, ainda dormia.
Foram 16 civis desarmados, que morreram dormindo ou acordaram para morrer, num pesadelo além de qualquer compreensão. Foi um massacre, tão selvagem, desumano, horrendo como todos os massacres, por mais que, hoje, na armadilha do duplifalar da guerra, já haja quem fale e escreva, até, sobre massacres “humanitários”.
“Morreram todos. Toda a minha família” – disse Nazim Shah a um repórter do jornal The Independent de Londres. “Nos vingaremos desses assassinos norte-americanos de mulheres e crianças. Não haverá paz nem descanso, até que essas mortes sejam vingadas.” Foi grito no qual ecoam tons de tragédias milenares, velhas como as escrituras de tantas religiões em todo o mundo. Foi desgraça tão intolerável, inadmissível e inaceitável no século 21, quanto nos tempos de Jó.
Porque nove das 16 vítimas eram crianças entre 6 e 9 anos, a indignação, o horror, a justa raiva só aumentam. As crianças foram tratadas como inimigo armado, como combatentes inimigos armados, no tempo ao mesmo tempo curto e infindável em que aquele sargento dedicou-se a matá-las. As mulheres foram mortas com tiro de execução, na testa. A mesma morte à qual o sargento dos EUA condenou também os homens desarmados.
Além dos 16 civis assassinados, há cinco sobreviventes feridos, que estão sendo tratados em unidades hospitalares norte-americanas. Se sobreviverem, serão testemunhas valiosas sobre o que aconteceu, quando um soldado dos EUA, cujo nome continua a ser protegido, decidiu matar afegãos desarmados, como se fosse herói de videogame com munição infinita.
Alexandre,  O Grande, comandava o militar macedônio que pela primeira vez tentou ocupar aquela terra que resiste há séculos contra qualquer ocupação, com ferocidade que nada parece abater. As terras do Afeganistão podem ser invadidas, podem até ser governadas, mas os afegãos nunca se deixaram conquistar completamente.
Depois foram os britânicos, depois os soviéticos, humilhados por combatentes da resistência afegã que jamais deixaram de resistir e não envergonhariam seus ancestrais do século 7º, nem depois que passaram a receber armas e dinheiro de espiões norte-americanos.
É mais que hora de os EUA admitirem, para um público de cidadãos escandalosamente indiferentes, que jamais conquistaremos corações e mentes afegãs em número suficiente que dê alguma (qualquer) justificativa para uma década de guerra e ocupação na qual, afinal, fomos derrotados.
A única razão admissível para que os EUA permanecessem no Afeganistão desapareceu com o assassinato de Osama bin Laden. A saúde mental dos soldados dos EUA, envolvidos numa guerra sem sentido nem rumo, deteriora-se a olhos vistos. A taxa de suicídios entre soldados que são repetidas vezes recrutados para mais e mais missões no Afeganistão já está entre as maiores da história.
Segundo pesquisa distribuída pela rede ABC/Washington Post, 60% dos norte-americanos são firmemente contra a guerra. Nenhum norte-americano mentalmente sadio quer matar ou morrer pelo regime de Karzai, dos mais corruptos do mundo; tampouco há quem responda coerentemente à pergunta sobre por quê os EUA continuam no Afeganistão. Orgulho nacional nunca teve nem terá algo a ver com “coerência”.
Recentemente, jovens norte-americanos responderam a uma campanha emocional, de propaganda viciosa e simplória pela internet [1], que visava a chamar a atenção do mundo para o nome de um senhor-da-guerra africano e cruel, Joseph Kony, líder de um bando de açougueiros conhecidos como “Exército da Libertação do Senhor”. O homem aterroriza a África Central há uma década. Se alguém merece ser demonizado, sim, é ele.
Mesmo assim, é difícil entender por que a imaginação da juventude nos EUA deixou-se tão rapidamente mobilizar por campanha (vídeo abaixo) contra um assassino africano, mas, simultaneamente, não se mobiliza nem dá sinais de indignação contra o que os EUA continuam a fazer no Iraque e no Afeganistão – duas guerras que, sim, muito mais que as guerras africanas, têm potencial direto para minar o futuro de uma geração, no mínimo, de jovens norte-americanos.
Não me surpreenderia se algum publicitário ou propagandista afegão esperto decidisse recriar a propaganda de “Kony 2012” e pusesse nas telas do Afeganistão outro vídeo de propaganda, no qual o presidente Barack Obama aparecesse como “O Kony do Afeganistão”.
Do ponto de vista dos afegãos civis, que sofrem o brutal dano colateral da presença em seu território de soldados assassinos ensandecidos, a diferença entre os conceitos de “ajuda humanitária” à moda Obama ou de luta-terror à moda Kony é, no máximo, firula acadêmica.
Para todas as vítimas de violências idênticas, a vida é brutal, difícil e, em todos os casos, curta.
Fonte:
 
1 comentário

Publicado por em março 16, 2012 em Uncategorized

 

Uma resposta para “Tragédia do Afeganistão é que ainda estamos lá

  1. Proftel

    março 16, 2012 at 2:43 pm

    O relato do que aconteceu é dukarai!

    :-/

     

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