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O que há a dizer:

07 abr

*por Günter Grass:

Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atómica.

Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel] onde há anos
– ainda que mantido em segredo –
se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a qualquer controlo,
já que é inacessível a qualquer inspecção?

O silêncio geral sobre esse facto,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coacção que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“anti-semitismo” se chama a condenação.

Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.

Por que me calei até agora?
Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse facto, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.

Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?

Porque há que dizer
o que amanhã poderá ser demasiado tarde,
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa quota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.

Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causante desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controlo permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelense
e das instalações nucleares iranianas.

Só assim poderemos ajudar todos,
israelenses e palestinos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.

[*] Prémio Nobel de Literatura, autor de O tambor A ratazana. 

O original foi publicado no diário Süddeutsche Zeitung , assim como em The New York Times e no jornal italiano La Reppublica. A tradução para português encontra-se em Jornal de Negócios

Este poema encontra-se em http://resistir.info/ .

 
27 Comentários

Publicado por em abril 7, 2012 em Uncategorized

 

27 Respostas para “O que há a dizer:

  1. Proftel

    abril 8, 2012 at 6:01 pm

    O poema que desmascarou Israel

    Baby Siqueira Abrão
    Correspondente no Oriente Médio:

    A polêmica começou em 4 de abril, quando o Süddeutsche Zeitung (literalmente, Jornal do sul da Alemanha) publicou o mais novo poema de Günther Grass, “Was gesagt werden muss” (“O que deve ser dito”). Nele, Grass critica Israel por seu poderio nuclear e pelas ameaças de ataque ao Irã. E vai além, chamando Netanyhau, primeiro-ministro israelense, de “fanfarrão” que quer exterminar o povo iraniano. O escritor também critica a Alemanha, que há pouco tempo vendeu outro submarino nuclear ao governo de Israel.

    Importantíssimas são as sugestões de Grass para que Israel e Irã permitam que autoridades internacionais inspecionem suas instalações nucleares; para que os sionistas renunciem à força; e o desafio à hipocrisia do Ocidente, que silencia diante dos crimes israelenses por temer a acusação de “antissemitismo” – segundo o poeta, uma “gravosa mentira”, uma coação. É preciso lembrar que os sionistas acusam seus críticos de “antissemitas”, procurando identificar esse termo com “antissionismo”.

    Na verdade, ambas as palavras referem-se a conceitos muito diferentes. “Antissemitas”, vocábulo cunhado no final do século 19 no contexto europeu de perseguição aos judeus, refere-se – com muita impropriedade, destaque-se, uma vez que grande parte da população árabe é semita e os judeus da Europa não o são – às pessoas que se opõem aos que professam o judaísmo. Já “antissionismo” diz respeito ao crescente movimento mundial daqueles que repudiam a ideologia sionista, considerada racista, militarista, apoiada em mitos que falseiam a história, na violência e na violação de direitos humanos, em função da opressão a que submete o povo palestino há mais de 100 anos.

    O sionismo conta com profissionais para criar argumentos que, distorcendo e negando a realidade, fazem a defesa de suas políticas e de suas práticas. Esses argumentos têm como objetivo desviar, do foco das críticas, a situação criada pelos sionistas na Palestina. Enviados a sionistas e judeus do mundo todo, são repetidos por eles à exaustão. Podem convencer ao interlocutor desacostumado a esse debate, mas são facilmente desmontados por aqueles que têm um mínimo de conhecimento sobre a história do sionismo, as pressões internacionais que seus adeptos fizeram para tomar a Palestina e a violência a que os sionistas submetem os palestinos desde fins do século 19.

    Günter Grass não chega ao ponto de desmascarar a falsa relação que os sionistas fazem entre antissemitismo e antissionismo ou as falácias que sustentam essa relação. Mas, numa Europa em que a população vive acuada, temendo ser acusada de antissemita, é um grande passo denunciar o uso da palavra como instrumento político de coação, destinado a calar os opositores dos sionistas (instrumento, por sinal, também utilizado no Brasil).

    Esses pontos, fundamentais no debate sobre o perigo que Israel representa para a ordem mundial, ao, entre outras ilegalidades, violar a legislação internacional, fabricar e armazenar secretamente armas de destruição de massa, praticar genocídio* contra o povo palestino, foram colocados na pauta mundial por Grass.

    Diante desse fato, as qualidades literárias do poema, consideradas abaixo da média pela crítica especializada, e o fato de o poeta ter participado de uma organização nazista aos 15 anos de idade (o que pode ser explicado por sua imaturidade, aliada à confiança que o povo alemão, Grass incluído, depositava no nazismo quando o levou ao poder), não têm a mínima importância.

    Trata-se de um poema militante, de um homem que conheceu a barbárie da guerra e teme que a humanidade, indefesa, seja submetida a barbárie muito pior em consequência dos caprichos de governantes desvairados.

    Fonte:

    http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/04/o-poema-que-desmascarou-israel.html

     
  2. Proftel

    abril 8, 2012 at 3:45 pm

    Da janela do escritório vejo o Sul, deve tá um belo pé d’água em Goiânia.

    Juro prôceis que não gostaria de estar lá.

    🙂

     
  3. Patriarca da Paciência

    abril 8, 2012 at 3:45 pm

    Proftel,

    engraçado, aqui em Santa Catarina, até parece que são 6 horas da tarde também. Só que a chuva é fininha e constante, daquelas que não param nunca. Aqui chamam de “chuva de molhar bobo”.

     
  4. Proftel

    abril 8, 2012 at 3:11 pm

    Por aqui acabou a energia duas vezes.

    Uma puta chuva que se fosse em Sampa teria deixado um monte de presuntos.

    São três da tarde com céu de cinco e meia da tarde.

    :-/

     
    • Proftel

      abril 8, 2012 at 3:32 pm

      Acabou a energia de novo, hoje tá de lascar!

      :-/

       
  5. Proftel

    abril 8, 2012 at 1:04 am

    Acabei de assistir esse filme com a patroa:

    🙂

     
    • Proftel

      abril 8, 2012 at 1:08 am

      Um cara pode sim fazer a diferença (para o bem ou para o mau).

      🙂

       
  6. b

    abril 7, 2012 at 11:19 pm

    Poesiazinha tentando ser engajada.

     
    • Proftel

      abril 8, 2012 at 12:15 am

      b:

      Sisprique.

      🙂

       
  7. Patriarca da Paciência

    abril 7, 2012 at 5:52 pm

    Proftel,

    nessa mesma linha de “caipira intelectual” uma linda moda, tanto em letra como em música, cantada aquei pelo Rolondo Boldrin mas que é de autoria do escritor Mário de Andrade, o mentor da Semana de Arte Moderno de 1922:

    http://letras.terra.com.br/rolando-boldrin/870911/

     
    • Proftel

      abril 7, 2012 at 7:47 pm

      Patriarca da Paciência:

      Te juro, essa não conhecia, é uma pérola!

      🙂

       
  8. Proftel

    abril 7, 2012 at 5:37 pm

    Compadre Brancaleone “soletrando” a música cheio de “guspe de satanáis” na cachola:

    kkkkkkkkkkkkkk

     
  9. Patriarca da Paciência

    abril 7, 2012 at 5:25 am

     
    • Proftel

      abril 7, 2012 at 4:55 pm

      Uai cara!

      Se trocar “Minas Gerais” por Ponta Grossa-PR, várias estrofes servirão a mim.

      🙂

       
  10. Patriarca da Paciência

    abril 7, 2012 at 5:18 am

     
  11. Patriarca da Paciência

    abril 7, 2012 at 4:32 am

    “Mas por que me proibiram de falar
    sobre esse outro país [Israel] onde há anos
    – ainda que mantido em segredo –
    se dispõe de um crescente potencial nuclear,
    que não está sujeito a qualquer controle,
    já que é inacessível a qualquer inspecção?”

    É engraçado, caro Proftel, mas venho falando quase a mesma coisa desde os tempos de “No mínimo”.

    Lembro-me que eu comentava sempre, “essa história de dizer : eu posso ter a bomba atômica porque sou digno e responsável e você não pode tê-la porque é irresponsável, não convence ninguém, ninguém mesmo”.

    É igual aquela artigo do jornalista chinês que dizia: ” a política externa norte-americana é como aquele marido, que, ao tentar se reconciliar com a esposa, começa o diálogo mais ou menos asim – Olha, eu sei que você é uma prostituta, mas como sou um cara muito generoso, vou te dar uma segunda chance.”

    Fazer o quê?

    É uma tragédia anunciada!

    Mas… quem sabe… milagres aconatecem.

    Continuo acreditando que ainda há muitas pessoas boas e dgnas trabalhando em sentido contrário à tragédia.

     
    • Proftel

      abril 7, 2012 at 4:45 am

      Patriarca da Paciência:

      “Uma velha anedota suíça reza que o príncipe alemão Wilhelm Hohenzollern certa vez, quando em visita a Suíça, foi convidado a assistir um dos inúmeros treinamentos militares a que os cidadãos desse país são submetidos. A um dado momento perguntou ao comandante do exercício: Quantos homens em armas você possue? Foi-lhe respondido: Um milhão. O príncipe, posteriormente Kaiser da Alemanha, então indagou: O que você faria se cinco milhões de meus soldados cruzassem sua fronteira amanhã? Ao que o comandante suíço replicou: Cada um de meus homens daria cinco tiros e iria para casa!”

      Fonte:

      http://www.armaria.com.br/suicos.htm

      🙂

       
      • Proftel

        abril 7, 2012 at 4:52 am

        “O EXÉRCITO DO POVO

        Atualmente, o serviço militar para os homens suíços é universal. Por volta dos 20 anos de idade, todo o cidadão passa por 118 dias consecutivos de treinamento no “Rekrutenschule.” Esse treinamento pode ser o primeiro encontro de um jovem com seus compatriotas que falam diferentes línguas (a Suíça tem 4 línguas oficiais: o alemão, o francês, o italiano e o romanche). Antes mesmo do serviço militar obrigatório começar, rapazes e moças podem ter cursos opcionais com o fuzil de assalto Stgw. 90 (SIG 550) do exército suíço. Eles ficam de posse da arma por 3 meses e recebem 6 sessões de 6 horas de treinamento. Dos 21 aos 32 anos de idade, o cidadão suíço constitue a linha de frente do exército, o “Auszug”, e dispende 3 semanas do ano (em 8 dos 12 anos) para continuar o treinamento. Dos 33 aos 42 anos, ele serve no “Landwehr” (que é a Guarda Nacional); a cada poucos anos, ele se apresenta para treinamento de 2 semanas. Finalmente, dos 43 aos 50 anos, ele serve na “Landsturm”; neste período, ele só passa um total de 13 dias em cursos militares .

        Durante a carreira de soldado, o cidadão também passa por dias de inspeção obrigatória de equipamentos e pratica de tiro ao alvo. Assim, em uma carreira militar obrigatória de 30 anos, o suíço gasta apenas 1 ano no serviço militar direto. Após a baixa do exército regular os homens ficam na reserva até a idade de 50 anos (55 para oficiais).

        Pela Constituição Federal de 1847, aos membros do serviço militar são dados equipamentos, armas e roupas. Depois do 1º período de treinamento os recrutas devem guardar as armas, a munição e os equipamentos “am ihrem Woh nort” (em suas casas) até o termino do serviço.

        Hoje em dia aos alistados são distribuídos fuzis automaticos Stgw.90 e, aos oficiais, pistolas. A cada reservista são entregues 24 cartuchos de munição em embrulhos selados para o uso em emergências. (Ao contrario do que dizem os anti-armas, está munição de emergência é a única pela qual o reservista tem de prestar contas).”

        Alguém aí já viu briga de vizinhos na Suíça?

        hehe.

         
    • Proftel

      abril 7, 2012 at 5:01 am

      Patriarca da Paciência:

      Agora vou dormir mesmo, a patroa está roncando a horas.

      Na época do “No Mínimo” a situação geopolítica não estava tão quente quanto hoje se apresenta, vai por mim.

      Hoje, se eu pudesse, deixaria o “relógio do fim do mundo” a um minuto da meia-noite, essa é minha percepção.

      De boa.

      🙂

       
  12. Proftel

    abril 7, 2012 at 1:53 am

    O que diz a mídia daqui sobre isso:

    http://blogs.estadao.com.br/marcos-guterman/o-que-deve-ser-dito-sobre-gunter-grass/

    Interessante né?

    hehe.

     
  13. Proftel

    abril 7, 2012 at 1:37 am

    Precisa dizer mais?

    🙂

     
    • Proftel

      abril 7, 2012 at 2:42 am

      No fundo os caras acham que podem fazer isso conosco:

      hehe, podem não.

      🙂

       
      • Proftel

        abril 7, 2012 at 2:47 am

        Bom, vou dormir, té manhã.

        🙂

         
        • Proftel

          abril 7, 2012 at 3:25 am

          Antes disso, só um link que vale a pena, já coloquei várias vezes:

          🙂

           

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