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O caçador de Blogs:

03 jun

“A toga, a língua e o caçador de blogs

Escudado na proteção republicana da toga, o ministro Gilmar Mendes desnudou uma controversa agenda política pessoal na última semana de maio. Onipresente na obsequiosa passarela da mídia amiga, lacrou seu caminho na 6ª feira declarando-se um caçador de blogs adversários de suas ideias e das ideias de seus amigos. Em preocupante equiparação entre a autoridade da toga e a arbitrariedade da língua, Gilmar decretou serem inimigos das instituições republicanas todos aqueles que contestam os seus malabarismos discursivos, a adequar denúncias a cada 24 horas, num exercício de convencimento à falta de testemunhas e fatos que as comprovem.

A fragilidade desse discurso impele-o agora ao papel de censor a exigir da Procuradoria Geral da República, e do ministro Mantega, que sufoque blogs adversários asfixiando-os com o corte da publicidade oficial. Sobre veículos que incluem entre suas fontes e ‘colaboradores informais’, notórios acusados de integrar quadrilhas do crime organizado, o ministro nada observa em relação à presença da publicidade oficial. Cabe ao governo Dilma dar uma resposta ao autonomeado censor da República.

O ataque da língua togada contra a imprensa crítica não é aleatório. O dispositivo midiático conservador vive em andrajos de credibilidade e pautas. A semana final de maio estava marcada para ser um desses picos de desamparo, na despedida humilhante de seu herói decaído. E de fato o foi: em depoimento no Conselho de Ética do Senado, na 3ª feira, o ex-líder dos demos na Casa, Demóstenes Torres, deixaria gravado no bronze dos falsos savonarolas a lapidar confissão de que um chefe de quadrilha pagava as contas, miúdas, observaria, de seu celular. E ele, o centurião da moralidade, a direita linha dura assim cortejada pela língua togada e pelo aparato conservador –quem sabe até para vôos maiores em 2014–, não viu nenhum tropeço ético nesse pequeno mimo que elucida todo um perfil.

O fecho de carreira do tribuno goiano contaminaria as manchetes que ele tantas vezes ancorou à direita não fosse a providencial intervenção da língua amiga do ministro do STF, Gilmar Mendes. Na mesma 3ª feira desde as primeiras horas da manhã, lá estava ela a falar pelos cotovelos. Diuturnamente, contemplou a orfandade da mídia amiga naquele dia cinzento. A cada qual ofereceu uma frase brinde para erguer a moral da tropa e justificar a manchete com o carimbo ‘exclusivo’ no alto da página. Não se poupou. O magistrado, não raro em destemperados decibéis, esfregou na opinião pública recibos e documentos que comprovariam o pagamento, com recursos próprios –‘tenho-os para umas três voltas ao mundo’– de seu giro europeu, em abril de 2011, onde se encontraria com Demóstenes Torres.

Peremptória, a língua emitiu ordens e ordenou o que pode e o que não pode em vários: ‘Vamos parar com essas suspeitas sobre viagens”, determinou. Para depois admitir em habilidosa antecipação: por duas vezes utilizou carona aérea do amigo Demóstenes; por duas vezes voou sob os auspícios do amigo que não possui veículo aéreo próprio; do amigo que não paga nem as contas de celular. Contas miúdas, diga-se, a revelar um vínculo orgânico com a ubíqua carteira gorda de acusados de integrar o condomínio criminoso goiano.

Gilmar estava determinado a servir de redenção ao dispositivo midiático demotucano num dia tão aziago. Não desapontou amigos, ainda que tenha escandalizado o país que espera serenidade e equidistância dos que vocalizam um Supremo Tribunal Federal. Ofensivo, execrou blogs e sites críticos — esses sim, bandidos e gangsters– que arguiram e ainda arguem as fronteiras da identidade de valores que aproximou o magistrado do senador decaído.

Fez mais ainda: acusou Lula de ser a central de boatos contra ele para ‘melar o julgamento do mensalão’ –como se o ex-presidente Lula não pudesse, não devesse ter opinião sobre fatos relevantes da vida política nacional –prerrogativa que outras togas mais serenas não contestam e legitimam. Ao jornal O Globo, na linha da frase à la carte, facilitou a manchete pronta para dissolver a terça-feira de cinzas do conservadorismo: ‘O Brasil não é a Venezuela onde Chávez manda prender juiz’. O diário retribuiu a gentileza em manchete garrafal de duas linhas no alto da página. Um contrafogo sob medida à humilhante baixa no Senado. Incansável, a língua foi provendo xistes e chutes a emissários de redações sedentas, mas cometeu alguns deslizes.

Esqueceu que um pilar de sua versão sobre a famosa conversa com Lula –origem de toda celeuma que descambou em ataque à liberdade de imprensa– residia nos pequenos detalhes que emprestam veracidade ao bom contador; um deles, o cenário: a cozinha. Teria sido naquele recinto profano do escritório do ex-ministro Nelson Jobim, abrigado de qualquer solenidade e sem a presença do anfitrião, que ocorrera o assédio moral inesperado de um Lula chantageador contra um Gilmar irretocável.

Quadro perfeito. Exceto pelo fato de não se sustentar nem mesmo no matraquear do interessado. Sim, o mesmo magistrado suprimiu o precioso cenário despido de testemunhas na versão apresentada ao jornal Valor do dia 30-05 quando afirmou literalmente: ‘Jobim esteve presente durante todo o tempo’. Como? E a cozinha? E a privacidade a dois que lubrificou o assédio de um Lula irreconhecível?

Evaporou-se: Jobim estava presente o tempo todo. A contradição ostensiva mirava agora outro alvo: o próprio Jobim, em retribuição ao desmentido categórico do anfitrião para o relato original do episódio à VEJA. No mesmo Valor, Gilmar insinuaria contra Nelson Jobim uma suspeita de cumplicidade com Lula por ter lançado na mesa da conversa o nome de um desafeto: Paulo Lacerda. Ex-dirigente da ABIN, Lacerda foi demitido em 2008 depois que a mesma lingua togada denunciou aos mesmos parceiros da mídia uma suposta escuta da PF em seu escritório –fato nunca comprovado. Na 5ª feira (31-05) o entendimento da investida contra Jobim ficaria completo: Serra, o candidato predileto do conservadorismo, amigo de Gilmar, prestou-se à colaborar com Veja; desinteressadamente; a exemplo do que tantas vezes o fez desinteressado o também o colaborador Dadá, araponga de aluguel do esquema Cachoeira. Serra incitou o amigo Jobim a falar com a revista sobre o encontro. É um traço do veículo da Abril –comprovado nos documentos disponíveis na CPI do Cachoeira– recorrer a colaboradores desse espectro para obter ‘provas’ que sustentem suas matérias pré-fabricadas.

Surpreendido pela trama rasteira Jobim tirou a escada de VEJA e deu troco duplo: desmentiu Gilmar no Estadão; confirmou a Monica Bergamo, da Folha, o que tantos sabem: Serra não falha; sua biografia de bastidores está, esteve e estará sempre entrelaçada a golpes e denúncias que contemplem a regressividade udenista da qual VEJA constitui a corneta mais atuante e Gilmar o novo expoente da agressividade lacerdista.

Diante do maratonismo verbal não sobraria fôlego aos jornais e jornalistas amigos para conceder ao leitor um pequeno espaço de reflexão sobre a momentosa semana final de maio, que deixa mais dúvidas do que certezas. Ademais da evanescente cozinha do escritório do ex-ministro Nelson Jobim, outros pontos de interrogação merecem retrospecto. Por exemplo:

a) a reportagem publicada por Carta Maior no dia 29-04 ” Cachoeira arruma avião para Demóstenes e ‘Gilmar’ –com aspas por conta da identificação incompleta do ilustre viajante e um dos motivos da fluvial verborragia togada, não tratava de pagamento de vôo a Berlim patrocinado pela ‘agência de viagens’ Demóstenes & Cachoeira;

b) o texto, conciso e claro baseado em escutas públicas da PF teve como foco uma ‘carona aérea’ no trecho SP-Brasília, solicitada ao esquema Cachoeira para o dia 25-04 de 2011;

c) as tratativas telefônicas da quadrilha Cachoeira apontam que os passageiros da carona viriam da Alemanha e seriam, respectivamente, Demóstenes e ‘Gilmar’ ;

d) a data da chegada a São Paulo é a mesma do retorno informado pelo próprio Gilmar Mendes em seu rally jornalístico;

e) o horário de chegada do seu vôo originário da Alemanha guarda proximidade com aquele informado à quadrilha. Essas as coincidências notáveis. A partir daí os fatos e comprovantes apresentados por Gilmar Mendes desmentem que ele tenha utilizado a dita carona solicitada à quadrilha, fato que Carta Maior noticiou imediatamente após os esclarecimentos do magistrado. O desencontro entre essas evidências e as providencias tomadas pela quadrilha Cachoeira, todavia, autoriza uma indagação que não se dissolve no aluvião verborrágico da semana, a saber: quantos Gilmares havia em Berlim com Demóstenes Torres? E, mais que isso: quem seria o ‘Gilmar’ cuja inclusão na carona, aparentemente desativada, não causou qualquer surpresa a Cachoeira, que nas escutas reage à menção do nome e da presença como algo se não habitual, perfeitamente compatível com a extensão de seus tentáculos e zonas de influência?

Carta Maior reserva-se o direito de continuar praticando um jornalismo crítico e auto-crítico, comprometido única e exclusivamente com a democracia e as aspirações progressistas da sociedade brasileira, abraçadas pela ampla maioria de seus leitores. Isso naturalmente a coloca na margem oposta daqueles que até ontem consideravam Demóstenes Torres, seus valores, agendas, contas de celular e caronas em jatinhos uma referência ética e republicana.

Fiel a esse compromisso com o leitor, Carta Maior cumpre a obrigação de manter em pauta algumas perguntas ainda sem resposta satisfatória: quantos gilmares havia em Berlim? Quantos gilmares havia no escritório de Jobim (um na cozinha e um na sala)? E, ainda mais urgente, quantas ameaças de fuzilamento da liberdade de expressão serão necessárias para que os partidos democráticos e o governo tomem a iniciativa de desautorizar a língua arvorada em extensão da toga? Não só em palavras, mas sobretudo na impostergável democratização afirmativa da publicidade oficial, antes que novos e velhos caçadores de jornalistas consigam transformá-la em mais um torniquete da pluralidade de opinião.”

Fonte:

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=998

 
8 Comentários

Publicado por em junho 3, 2012 em Uncategorized

 

8 Respostas para “O caçador de Blogs:

  1. Patriarca da Paciência

    junho 7, 2012 at 7:15 pm

    Autor: Luis Nassif
    Nem Machado de Assis escreveria roteiro tão insólito.

    Um Ministro do Supremo Tribunal Federal enlouquece. Passa a distribuir declarações cada vez mais alucinadas, trasformando o Supremo em circo ou hospício. O presidente do STF nada faz, porque é um poeta apartado das coisas vãs do mundo real.

    Os demais Ministros percebem estar convivendo com um louco, mas não querem se meter na questão, porque loucos são imprevisíveis. E se o louco se volta contra eles? E se o louco convoca seu “personal aaponga”? Cada qual trata de se debruçar sobre seus próprios processos e ignorar o Ministro louco.

    Sem saber o que fazer com o louco, o reino continua sua vida normal, fingindo que não existe o Ministro louco que desmoraliza o Supremo. De tempos em tempos, colunistas com dificuldade para preencher sua cota de notas, entrevista o Ministro louco. Ele dá uma declaração louca envolvendo algum colega.

    No dia seguinte, burocraticamente os jornais procuram o colega que desmente a nota.

    E o reino vai tocando sua vida, procurando ignorar que existe um Ministro louco na mais alta corte.

    Só no dia em que o surto se tornar irreversível e o Ministro sair carregado em camisa de força o Supremo tomará alguma atitude.
    http://brasilianas-novo.no-ip.org/blog/luisnassif/supremo-circo-ou-hospicio

     
  2. Jose Mario HRP

    junho 6, 2012 at 6:51 am

    Valeu Bronco Bill!

     
  3. Brancaleone, Broncão para os chegados...

    junho 5, 2012 at 10:11 pm

    Proftel!! Urgente!!
    Faça suas sapeagens meteorológicas e veja o que aconteceu por aqui (Tunas) ontem, por volta das 16 horas.
    Coisa feia véio!!!
    Telhados se foram.
    Pinheiros pra mais de 50 anos torcidos e quebrados.
    Eucaliptos arrancados.
    Tudo muito localizado, numa trilha…

    Vê aí!!

     
  4. Jose Mario HRP

    junho 5, 2012 at 11:14 am

    Alex, como vai o seu pai?
    O que é Bilderberg?

     
    • Brancaleone, Broncão para os chegados...

      junho 5, 2012 at 9:16 pm

      Bilderberg (ou coisa parecida…) é o nome que os alucinados conspiracionistas dão aos encontros que acontecem de tempos em tempos. Lá comparecem os líderes mundias que decidem o que vão fazer para ficar mais ricos e o que vão permitir que se faça.
      Claro que afirmam que a maioria é “banqueiro judeu” e outras minorias milinária…
      Interessante, ridiculamente cômico…

       
  5. Brancaleone, Broncão para os chegados...

    junho 4, 2012 at 11:39 am

    Atenção!!!
    Consegui burlar a segurança de Bilderberg e obtive um convite VIP.
    O único problema esta sendo alugar um Rolls Royce. Chegar lá com meu Uninho 2001 ou com o Toyotão 77 pode estragar o disfarce…
    Manterei voces informados!!!

    P.S. – Não se alegrem. Não estou levando explosivos, armas, gases letais ou venenos.
    Confraternizo com muitas das idéias daqueles senhores!!

     
  6. Brancaleone, Broncão para os chegados...

    junho 4, 2012 at 11:29 am

    Onde tem fumaça, tem fogo mesmo que fraquinho…

    Fosse a acusação de Gilmar contra FHC com certeza a petelhada estaria jogando gasolina no fogo fraquinho mas, como é contra o sagrado Lula, a coisa se inverte. A guarda pretorina lulista atira-se a vasculhar fragilidades nas denúncias do não impoluto Gilmar, em busca de falhas e minúncias que não só inocentem o ex-atual-futuro(?) presidente como esculhambem com a combalida moral de Gilmar.
    É o roto denunciando o esfarrapado. Certamente a moral ou a falta dela dos envolvidos não invalida de todo as acusações de Gilmar.
    Já não importa muito ou nada se Lula realmente chantageou Gilmar. O que importa para a guarda pretoriana lulista é demonstrar que Gilmar é sim mais um nos favorecidos cachoeirísticos e que ao fim merecia ser chantageado…

     
  7. Patriarca da Paciência

    junho 3, 2012 at 3:35 pm

    Dr. Gilmar Mendes,

    um juiz que vive sempre falando fora dos autos e emitindo ilações sobre os mais diversos assuntos, comportamento totalmente inadequado para juízes.

    Sem contar que anda em companhias bem inadequadas, vide Demóstenes Torres.

    É estranho como toda a tal “grande mídia”, agora com algumas execeções, (vide Estadão e revista IstoÉ) se cala toalmente para algo tão estarrecedor.

    Até onde irá o Dr. Gilmar Mendes?

     

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